Cavitação

modo_falhaISO 14224: CAVFw A · mixed_complexFw B · cbm (P-F/2 (inspeção mensal típica; contínuo via monitoramento online em ativos críticos))
Sugerir correção

O que é. Dentro de uma bomba centrífuga, a pressão na entrada do impelidor pode cair abaixo da pressão de vapor do líquido. Nesse instante o líquido entra em ebulição localmente por baixa pressão, não por calor: todo líquido ferve quando seu par pressão-temperatura (P×T) cruza a curva de saturação — a ebulição comum na cozinha muda a temperatura mantendo a pressão fixa; a cavitação faz o caminho inverso, muda a pressão mantendo a temperatura fixa. O resultado físico é o mesmo — formam-se bolhas de vapor — mas o gatilho é oposto. Essas bolhas, arrastadas para regiões de maior pressão dentro do impelidor, colapsam violentamente contra as superfícies metálicas.

A violência do fenômeno. Cada bolha que colapsa perto da parede dispara um microjato de líquido a 100–500 m/s — velocidade comparável à de um projétil de fuzil — e uma onda de choque local que supera milhares de vezes a pressão de operação da bomba. Um evento isolado é inofensivo; o problema é que ocorrem centenas a milhares de colapsos por segundo, sempre no mesmo lugar.

Como reconhecer em campo. Ruído característico de "bombear cascalho" ou estalidos, vazão e pressão instáveis ou em queda, vibração elevada e — com o tempo — superfície do impelidor esburacada como casca de laranja.

O que a cavitação custa. Três contas ao mesmo tempo: energia (o rendimento hidráulico cai e a bomba passa a gastar mais para entregar menos), reparo (impelidor erodido exige solda especializada ou substituição — um dos componentes mais caros do conjunto) e indisponibilidade (a falha madura para em dias, não em meses). Há ainda o dano colateral: a vibração de cavitação acelera a falha do selo mecânico e dos rolamentos — é comum o selo falhar antes de o impelidor furar.

A causa de fundo é quase sempre do sistema, não da bomba: nível baixo no tanque de sucção, filtro entupido, ou a bomba operando longe do ponto para o qual foi selecionada. A temperatura alta do fluido também entra nessa lista — e aqui vale reforçar a distinção acima: não é que o calor "ferva" o líquido diretamente, é que a pressão de vapor sobe junto com a temperatura, consumindo a margem de pressão que evitava a cavitação. Mesma instalação, mesma bomba: aquecer o processo pode ser suficiente para começar a cavitar. E a regra de ouro do operador: nunca "alivie" a cavitação fechando a válvula de sucção — isso derruba ainda mais a pressão na entrada e agrava o fenômeno. Reduza a vazão pela descarga, nunca pela sucção.

Framework A — Diagnóstico

Como a falha se comporta no tempo (Nowlan & Heap)

Categoria
Mixed/Complex
β Weibull
variável (gatilho operacional aleatório + erosão progressiva β≈1,5–3)

Framework B — Prescrição

Tarefa aplicável e eficaz (SAE JA1011 / Moubray)

Decisão
CBM
Periodicidade
P-F/2 (inspeção mensal típica; contínuo via monitoramento online em ativos críticos)
P-F detectável
Sim
Falha evidente
Sim
P-F típico
~1 semana (ferro fundido, cavitação severa) a ~6 meses (inox, moderada) — Bloch & Geitner; minutos no colapso severo de desempenho

Plano de manutenção

FOCO NO MODO DE FALHA: Este plano existe para combater especificamente o modo de falha "Cavitação" em "Bomba Centrífuga". Na metodologia RELIABILITAS (Framework A → Framework B), plano de manutenção periódico só é tecnicamente válido para modos de falha com decisão TBM ou CBM. Para falhas aleatórias sem P-F detectável, falhas ocultas ou mortalidade infantil, plano periódico NÃO faz sentido — a resposta correta é outra (RTF + gestão de sobressalentes, proof test, controle de qualidade na montagem). A classificação que fundamenta este plano está na seção 1.

TarefaMétodoCritério de aceitaçãoPeriodicidade
Analisar vibração em banda de alta frequênciaCondição de contorno: Em operação, carga estável — registrar vazão e ponto de operação da mediçãoEspectro + envelope; energia banda larga 10–25 kHz modulada por BPF; kurtosis na banda altaRMS da banda 10–25 kHz ≤ 2× o baseline da máquina sã; sem sub-síncronos 0,3–0,8×RPMConfirmar com ultrassom; auditar NPSHa e posição no BEP; corrigir pela camada operacional antes de intervir na bombaMensal (P-F/2)
Inspecionar acusticamente a sucção e a volutaCondição de contorno: Em operação, junto à rota de vibraçãoUltrassom/estetoscópio; ruído de "cascalho" contínuo; distinguir de entrada de ar (teste de estanqueidade)Sem ruído de cascalho contínuo; nível ultrassônico estável frente ao baselineRuído presente com NPSHa adequado → investigar recirculação e entrada de ar (tabela de diagnóstico diferencial)Mensal, junto à rota de vibração
Monitorar margem de NPSH e posição no BEPCondição de contorno: Contínuo, em operação (PIMS)NPSHa calculado da instrumentação vs NPSHr de curva; vazão vs BEP; tendência de head e potência no PIMSNPSHa dentro da margem normativa (razão 1,1–2,5 — HI 9.6.1; ≥ NPSHr + 1 m — API 610); vazão no POR (70–120% do BEP)Margem violada → restaurar nível/pressão de sucção, reduzir vazão pela descarga ou reduzir rotação (NPSHr ∝ N²)Contínuo (alarme de desvio)
Inspecionar visualmente o impelidorCondição de contorno: Parada de oportunidade, bomba drenada e bloqueadaBoroscopia; morfologia dos pits (bordas rugosas, metal limpo) e profundidade vs critério de reparoPits rasos e dispersos; borda de ataque íntegra; sem trincas coalescendoCoalescência ou borda comprometida → recuperar por solda com liga resistente + balancear; recorrência → avaliar upgrade de materialOportunidade / anual

Grafo local

CavitaçãoBomba CentrífugaCBM — Manutenção Ba…RolamentoSelo MecânicoTBM — Manutenção Ba…Turbinas HidráulicasFlowserve HPXDry Running (Operaç…Fadiga de Contato (…Bombas Rotodinâmicas
Fontes28

Normas e institutos

  • ASTM G40 — Standard Terminology Relating to Wear and Erosion
  • ASTM G32 — Cavitation Erosion Using Vibratory Apparatus
  • ISO 14224:2016 — Tabela B.2 (cavitação como mecanismo de falha próprio)
  • ANSI/HI 9.6.1 (2024) — Guideline for NPSH Margin
  • ANSI/HI 9.8 — Rotodynamic Pumps: Intake Design
  • API 610, 12ª ed. — Centrifugal Pumps for Petroleum, Petrochemical and Natural Gas Industries
  • ISO 9906:2012 — Rotodynamic Pumps: Hydraulic Performance Acceptance Tests

Literatura técnica

  • Franc & Michel — Fundamentals of Cavitation (2004, Springer), caps. 4 e 8
  • Brennen — Cavitation and Bubble Dynamics (1995, Oxford), caps. 2, 3 e 5
  • Gülich — Centrifugal Pumps, 3ª ed. (2014, Springer), caps. 3, 6 e 11
  • Plesset & Chapman (1971) — J. Fluid Mech. 47 (colapso assimétrico)
  • Hutchings & Shipway — Tribology (2017, Elsevier), caps. 4–6
  • ASM Handbook Vol. 11 — Failure Analysis and Prevention (2002)
  • Karassik et al., Pump Handbook, 4ª ed. (2008), cap. 2
  • Bloch & Geitner — Machinery Failure Analysis and Troubleshooting, 4ª ed. (2012), cap. 7
  • Perez — Troubleshooting Rotating Machinery (2022, Wiley), cap. 4
  • Japikse, Marscher & Furst — Centrifugal Pump Design and Performance (1997), cap. 8 (indutores)
  • Çengel & Boles — Thermodynamics: An Engineering Approach, 8ª ed., Tabela A-4
  • Budynas & Nisbett — Shigley's Mechanical Engineering Design, 10ª ed., cap. 6 (fadiga, Kt)
  • Moubray, RCM II (1997), caps. 6 e 7 — tarefas preventivas e preditivas, intervalo P-F

Artigos e relatórios

  • Rayleigh (1917) — On the pressure developed in a liquid during the collapse of a spherical cavity, Phil. Mag. 34
  • Naude & Ellis (1961) — ASME J. Basic Engineering 83, p. 648–656 (microjato)
  • Paris & Erdogan (1963) — ASME J. Basic Engineering 85 (lei de propagação de trinca)
  • Hattori, Maeda & Otobe (2004) — Wear 257 (dureza × resistência à cavitação)
  • Fraser (1981) — Recirculation in Centrifugal Pumps, ASME 81-WA/FE-6
  • "A Review of Pump Cavitation Fault Detection Methods Based on Different Signals" — Processes (MDPI) 11(7):2007, 2023
  • Suslick (1990) — Sonochemistry, Science 247 (temperaturas de colapso)
  • Nowlan & Heap (1978) — padrões de taxa de falha

Revisado em 2026-07-11

Referenciada por