O que é. Dentro de uma bomba centrífuga, a pressão na entrada do impelidor pode cair abaixo da pressão de vapor do líquido. Nesse instante o líquido entra em ebulição localmente por baixa pressão, não por calor: todo líquido ferve quando seu par pressão-temperatura (P×T) cruza a curva de saturação — a ebulição comum na cozinha muda a temperatura mantendo a pressão fixa; a cavitação faz o caminho inverso, muda a pressão mantendo a temperatura fixa. O resultado físico é o mesmo — formam-se bolhas de vapor — mas o gatilho é oposto. Essas bolhas, arrastadas para regiões de maior pressão dentro do impelidor, colapsam violentamente contra as superfícies metálicas.
A violência do fenômeno. Cada bolha que colapsa perto da parede dispara um microjato de líquido a 100–500 m/s — velocidade comparável à de um projétil de fuzil — e uma onda de choque local que supera milhares de vezes a pressão de operação da bomba. Um evento isolado é inofensivo; o problema é que ocorrem centenas a milhares de colapsos por segundo, sempre no mesmo lugar.
Como reconhecer em campo. Ruído característico de "bombear cascalho" ou estalidos, vazão e pressão instáveis ou em queda, vibração elevada e — com o tempo — superfície do impelidor esburacada como casca de laranja.
O que a cavitação custa. Três contas ao mesmo tempo: energia (o rendimento hidráulico cai e a bomba passa a gastar mais para entregar menos), reparo (impelidor erodido exige solda especializada ou substituição — um dos componentes mais caros do conjunto) e indisponibilidade (a falha madura para em dias, não em meses). Há ainda o dano colateral: a vibração de cavitação acelera a falha do selo mecânico e dos rolamentos — é comum o selo falhar antes de o impelidor furar.
A causa de fundo é quase sempre do sistema, não da bomba: nível baixo no tanque de sucção, filtro entupido, ou a bomba operando longe do ponto para o qual foi selecionada. A temperatura alta do fluido também entra nessa lista — e aqui vale reforçar a distinção acima: não é que o calor "ferva" o líquido diretamente, é que a pressão de vapor sobe junto com a temperatura, consumindo a margem de pressão que evitava a cavitação. Mesma instalação, mesma bomba: aquecer o processo pode ser suficiente para começar a cavitar. E a regra de ouro do operador: nunca "alivie" a cavitação fechando a válvula de sucção — isso derruba ainda mais a pressão na entrada e agrava o fenômeno. Reduza a vazão pela descarga, nunca pela sucção.
Classificação normativa — as duas convenções
Pela ASTM G40 (terminologia de desgaste e erosão), a cavitação é um modo de erosão — cavitation erosion: "erosão causada pela formação e colapso de cavidades em um líquido junto a uma superfície sólida". A ASTM G32 padroniza o ensaio de resistência dos materiais. Já a ISO 14224:2016 (Tabela B.2) — a norma que estrutura a taxonomia desta plataforma — lista a cavitação como mecanismo de falha próprio, subdivisão da categoria material failure, distinto de erosão e de corrosão. As duas convenções não conflitam: a ISO nomeia o mecanismo (o processo físico); a ASTM descreve o resultado (dano erosivo). Esta nota usa o código CAV da convenção ISO e descreve o dano na convenção ASTM. A distinção decide material de reposição, estratégia de manutenção e correção.
Diagnóstico diferencial — o que a cavitação NÃO é
Não é abrasão. O desgaste abrasivo (Hutchings, cap. 4) exige partículas duras ou contato deslizante, e o volume removido é governado pela dureza do material — quanto mais duro, menos desgasta. Remove material por micro-corte tangencial e deixa sulcos orientados na direção do escoamento. Na cavitação com fluido limpo não há partícula nem deslizamento: o impacto é perpendicular e produz crateras sem direção preferencial. Consequência prática direta: revestimentos duros (WC-Co) que resolvem abrasão têm eficácia limitada contra cavitação — dureza não é o parâmetro governante (Franc & Michel, cap. 8: cerâmicas duras porém frágeis podem se sair pior que ligas mais macias e tenazes).
Não é corrosão (como mecanismo primário). Pites de corrosão têm bordas suaves, produtos de corrosão acumulados e aparecem onde a eletroquímica manda (metais dissimilares, frestas, depósitos). Pites de cavitação têm bordas rugosas e metal limpo (o impacto remove continuamente o filme passivo) e aparecem exatamente onde a termodinâmica prevê — as regiões de menor pressão do escoamento. A prova definitiva: inox 316L com excelente resistência química é severamente erodido por cavitação em água limpa (ASM Handbook Vol. 11).
Diagnóstico de campo — a tabela das confusões clássicas
Quatro fenômenos produzem sintomas parecidos e correções completamente diferentes. Errar aqui é trocar impelidor para resolver um flange que suga ar:
Cavitação de sucção
Entrada de ar (falsa cavitação)
Recirculação (off-BEP)
Flashing (fluido saturado)
Causa raiz
NPSHa < exigido
Vazamento na linha/vedação de sucção
Operação longe do BEP
Fluido próximo da saturação vaporiza na sucção
Quando piora
Ao aumentar vazão (NPSHr sobe)
Independe da margem de NPSH
Em baixa vazão
Ao subir temperatura / cair pressão do sistema
Som/assinatura
Cascalho contínuo; banda larga alta frequência
Estalos irregulares; bolhas visíveis no visor
Ruído intermitente; sub-síncronos 0,3–0,8×RPM
Como cavitação, com histórico térmico
Teste de campo
Melhora ao reduzir vazão pela descarga ou subir nível
Não muda com NPSH; teste de estanqueidade acha o ponto
Melhora ao aumentar vazão
Correlaciona com T e pressão de vapor
Correção
Restaurar margem de NPSH
Estanqueidade da sucção
Reposicionar ponto de operação (VFD/válvula)
Subresfriar/pressurizar a sucção
O que ocorre — os mecanismos reais
Erosão por impacto (primário): microjato + onda de choque removem material diretamente, formando os pits característicos.
Deformação plástica repetitiva com encruamento: impactos abaixo do limiar de remoção deformam a superfície; a densidade de discordâncias cresce, o material encrua — fica mais duro e menos dúctil. Amostras em ensaio ASTM G32 mostram aumento mensurável de microdureza superficial antes de qualquer perda de massa (Franc & Michel): o dano começa invisível, no período de incubação.
Fadiga superficial: a borda de cada pit é um concentrador de tensão (Kt≈3 para descontinuidade circular — Shigley, cap. 6) e a camada encruada tem energia de fratura reduzida; os ciclos de impacto nucleiam e propagam microtrincas que coalescem e destacam placas inteiras — a fase de perda acelerada de massa.
Tribocorrosão (situacional): em fluidos agressivos (água do mar, pH extremo), o impacto remove o filme passivo e a corrosão ataca o metal nu antes da repassivação — sinergia em que o dano combinado excede a soma das parcelas (fatores de 2–5× reportados).
O resultado macroscópico é o ciclo autocatalítico: pit → concentrador de tensão → microtrinca → lasca → pit maior. A matemática da propagação está no nível Engineer.
Tipos de cavitação em bombas
Clássica de sucção (NPSH insuficiente) — a mais comum; bolhas nucleiam na face de baixa pressão das pás junto ao olho do impelidor e colapsam ao avançar para a zona de pressão. Dano na borda de ataque, lado de sucção. Piora ao aumentar a vazão (o NPSHr cresce com Q²).
Recirculação de sucção — em baixa vazão o fluido não é guiado pelas pás e forma vórtices de recirculação na entrada, com núcleos de baixíssima pressão — mesmo com NPSHa adequado (Fraser, 1981). Dano no lado de pressão das pás. Quanto maior a energia e a velocidade específica de sucção do projeto, mais cedo (em vazões relativamente mais altas) a recirculação se instala.
Recirculação de descarga — operação muito abaixo do BEP; refluxo na saída do impelidor e na língua da voluta. Assinatura típica: componentes sub-síncronos (0,3–0,8×RPM) e nível de vibração instável — diferente da cavitação de sucção, que produz nível elevado estável.
Vórtice de superfície / submergência insuficiente — nível baixo no poço arrasta um cordão de ar+vapor para o bocal (critérios de submergência mínima: ANSI/HI 9.8).
Falsa cavitação (entrada de ar) — diagnóstico diferencial obrigatório (tabela acima): sintomas acústicos parecidos, correção completamente diferente.
O caso "o NPSH está adequado mas ela cavita" é quase sempre recirculação: o engenheiro confere a margem, encontra folga e descarta cavitação — quando o problema é a posição no BEP, não a sucção.
Framework A — diagnóstico
Mixed/Complex: o gatilho é operacional e aleatório (surge quando a margem de NPSH se esgota ou o ponto foge do BEP), mas o dano é progressivo — a erosão acumula com β>1. A IT-MNT-001 lista "cavitação intermitente em bombas" como exemplo canônico da categoria — e manda decompor por FMEA: a resposta correta para "cavita toda vez que o tanque opera baixo" é operacional (controle de nível), não uma tarefa de manutenção.
Framework B — prescrição
Existe P-F detectável (vibração, ruído, tendência de desempenho) e a falha é evidente → CBM com periodicidade P-F/2. Tarefas no plano exportável abaixo da página. A correção definitiva é operacional/de projeto — as camadas de ação, em ordem de custo e reversibilidade:
Operacional imediata (sem parar a máquina): restaurar nível/pressão de sucção; limpar filtros; reduzir vazão pela válvula de descarga — nunca pela sucção (estrangular a sucção derruba a pressão de entrada e intensifica o colapso; erro de operação clássico documentado por Perez, cap. 4); reduzir rotação via VFD — pelas leis de similaridade o NPSHr cai com o quadrado da rotação (−20% de rotação ≈ −36% de NPSHr, com bônus de −49% de potência).
Instalação: aumentar o diâmetro da linha de sucção — as perdas caem com a quinta potência do diâmetro (ver Engineer): +20% de diâmetro ≈ −60% de perdas; dobrar ≈ −97%. Encurtar e retificar a sucção (mínimo de 5–10 diâmetros retos antes do bocal); redutor excêntrico com face plana para cima (API 610 — o concêntrico cria bolsão de ar); velocidade na sucção ≤ 1,5 m/s para água limpa (ANSI/HI 9.8); resfriar o fluido; rebaixar a bomba ou subir o nível.
Intervenção na bomba: indutor axial no olho do impelidor (reduz o NPSHr do conjunto em 50–70% — Japikse); impelidor com olho de sucção maior (reavaliar BEP); troca de material (paliativo consciente — compra vida, não elimina a causa).
Prevenção por projeto: margem de NPSH pela ANSI/HI 9.6.1 (2024) — razão NPSHa/NPSHr de 1,1 a 2,5 conforme energia de sucção e velocidade específica; pela API 610, NPSHa ≥ NPSHr + 1,0 m em toda a região de operação permitida (AOR). Teste de desempenho e NPSH conforme ISO 9906. Geometria de captação conforme ANSI/HI 9.8.
Termodinâmica: Pv(T) e a margem que derrete
A cavitação inicia quando a pressão estática local cruza a pressão de vapor Pv(T). A dependência com a temperatura é governada pela equação de Clausius-Clapeyron (com vapor ideal):
dTdPv=RvT2LvapPv
— o crescimento é exponencial, não linear. Para a água (Çengel & Boles, Tabela A-4):
T (°C)
Pv (kPa)
vs. 20 °C
20
2,34
1,0×
40
7,38
3,2×
60
19,94
8,5×
70
31,19
13,3×
80
47,39
20,3×
100
101,33
43,3×
A leitura operacional: uma instalação com margem confortável a 25 °C pode cavitar severamente sem nenhuma modificação física — basta o processo aquecer. O exemplo numérico abaixo quantifica exatamente isso. A nucleação real é heterogênea: microbolhas de gás dissolvido e cavidades em partículas/paredes servem de embriões (água desgaseificada de laboratório resiste a trações muito maiores antes de cavitar — Brennen, cap. 1).
A dinâmica da bolha — Rayleigh-Plesset
O crescimento e colapso de uma bolha esférica de raio R(t) é governado por:
ρ(RR¨+23R˙2)=PB−P∞(t)−R2σ−R4μR˙
onde PB=Pv+Pg é a pressão interna (vapor + gás não condensável residual — o termo que amortece o colapso final e alimenta o rebote). O lado esquerdo é a inércia do líquido; PB−P∞ é o motor: quando a bolha entra na zona de alta pressão do impelidor, P∞ salta, o termo fica fortemente negativo e o colapso é instável — quanto menor R, mais rápido ele se acelera. Do caso ideal de Rayleigh (1917) sai o tempo de colapso de uma cavidade vazia:
τ≈0,915R0P∞−Pvρ
— para R0=1 mm em água à pressão atmosférica, τ≈91 μs: o colapso é praticamente instantâneo, e a energia potencial de pressão se concentra num volume que tende a zero.
Colapso assimétrico: microjato e onda de choque
Perto de uma parede o colapso é assimétrico (Plesset & Chapman, 1971): o lado da bolha voltado ao fluido livre acelera antes, atravessando a bolha como um microjato que atinge a superfície perpendicularmente a 100–500 m/s (visualizado por Naude & Ellis, 1961). O rebote emite ainda uma onda de choque com picos locais de 1–10 GPa por microssegundos em raios micrométricos (Brennen, cap. 5; Franc & Michel, cap. 8).
Referência de pressão
Ordem de grandeza
Descarga de bomba de processo
0,5–3 MPa
Sistema hidráulico industrial
10–40 MPa
Injeção diesel common rail
150–300 MPa
Escoamento do aço 316L
~170 MPa
Onda de choque do colapso
1.000–10.000 MPa
O impacto excede o limite de escoamento de qualquer liga de engenharia por 1–2 ordens de grandeza — em área microscópica, por microssegundos, repetidamente: com 100 a 10.000 colapsos por segundo por cm² (Brennen, cap. 3), uma bomba cavitando acumula até ~10⁸ impactos por hora por cm² — fadiga de ciclo ultra-alto, muito além dos 10⁷ ciclos da curva S-N convencional. No núcleo da bolha, a sonoluminescência evidencia temperaturas de 5.000–15.000 K no colapso final (Suslick) — mais quente que a superfície do Sol, em volume nanométrico.
Do impacto à perda de massa — a micromecânica
A sequência quantificável: (1) impactos acima do limite de escoamento deformam plasticamente a superfície; o encruamento eleva a microdureza local antes de qualquer perda de massa — a impressão digital do período de incubação da curva MDE do ensaio G32. (2) A borda de cada pit concentra tensão (Kt≈3); a camada encruada, agora frágil, nucleia microtrincas. (3) A propagação segue a lei de Paris & Erdogan:
dNda=C(ΔK)m
— e como cada colapso sobre um pit existente aumenta ΔK conforme a trinca cresce, a propagação acelera de forma não linear: trincas coalescem, placas se destacam, e a curva de perda de massa sai da incubação para a taxa máxima. É por isso que a erosão por cavitação não é linear no tempo — e por que inspeção visual precoce subestima o dano.
NPSH — formulação rigorosa
Aplicando Bernoulli do nível do reservatório de sucção (0) ao flange de entrada da bomba (1), com perdas Σhf:
NPSHa=ρgP0−Pv(T)−Hs−Σhf
onde P0 é a pressão absoluta na superfície do líquido, Hs a altura estática (positiva com a bomba acima do nível; negativa quando afogada) e Σhf as perdas na linha de sucção. Referência de cota: linha de centro do eixo (horizontais). Cada termo é uma alavanca de intervenção:
P0/ρg: fixado pela altitude quando o tanque é atmosférico — 10,33 m ao nível do mar, ~9,2 m a 1.000 m, ~8,1 m a 2.000 m. Instalações no Planalto Central partem com ~1 m a menos que a costa.
Hs: cada metro de elevação da bomba subtrai um metro de NPSHa.
Σhf: por Darcy-Weisbach, hf=f(L/D)V2/2g; com vazão fixa, V∝D−2, logo hf∝D−5 (f ≈ constante). A alavanca mais forte da instalação:
Diâmetro da sucção
Redução nas perdas
D × 1,2
~60%
D × 1,5
~87%
D × 2,0
~97%
Pv(T)/ρg: cresce exponencialmente com a temperatura (tabela acima).
O que o NPSHr de catálogo significa — e o que não significa. O NPSHr é o NPSH₃: o valor em que o head já caiu 3% no teste (ISO 9906 / HI) — um critério de desempenho, não de dano. A cavitação incipiente (NPSHi) ocorre com NPSH muito ACIMA do NPSH₃ — tipicamente 2 a 6 vezes, conforme Gülich (cap. 6): no ponto de catálogo a bomba já cavita audivelmente e erode; ela só ainda não perdeu 3% de head. É essa hierarquia que fundamenta as margens normativas: razão NPSHa/NPSHr de 1,1–2,5 por energia de sucção (ANSI/HI 9.6.1:2024) e ≥ +1,0 m em toda a AOR (API 610).
Parâmetros associados: velocidade específica de sucção Nss (projetos agressivos estreitam a janela estável de vazão e recirculam mais cedo); número de cavitação σ=(P∞−Pv)/(21ρU2), que adimensionaliza a propensão do escoamento; e a lei de similaridade NPSHr∝N2 — a base quantitativa da correção por VFD.
Exemplo numérico — a mesma instalação em duas temperaturas
Tanque atmosférico ao nível do mar, bomba 2,0 m acima do nível mínimo, perdas de sucção 1,2 m, NPSHr₃ = 4,0 m no ponto de operação.
Água a 60 °C (ρ=983 kg/m³; Pv=19,94 kPa): NPSHa=10,51−2,0−1,2−2,07=5,24 m → margem de +1,24 m e razão 1,31 — atende à API 610 e à HI para baixa energia de sucção (alta energia pediria mais).
O processo aquece para 80 °C (ρ=972 kg/m³; Pv=47,39 kPa): NPSHa=10,63−2,0−1,2−4,97=2,46 m → 2,46 < 4,0: cavitação franca, sem que nada na instalação tenha mudado. As opções, na ordem das camadas: subresfriar/subir nível (+), reduzir rotação (NPSHr cai com N²), rebaixar a bomba, ou indutor. A conta inteira pode ser refeita com os seus números — é a auditoria de sucção que antecede qualquer troca de material.
Resistência dos materiais
A correlação entre dureza e resistência à cavitação é fraca (Hattori et al., 2004: R² < 0,5 entre famílias metálicas) — os parâmetros que governam são limite de fadiga, tenacidade e capacidade de encruar sem fraturar. O ensaio ASTM G32 (horn vibratório a 20 kHz, amplitude 50 μm, amostra em água destilada) mede a perda de massa e expressa o resultado como MDE (profundidade média de erosão) e MDER (taxa). O ranking consolidado (Franc & Michel; ASM Handbook Vol. 18), em taxa relativa de erosão (menor = melhor):
Material
MDER relativo
Nota de aplicação
Stellite 6 (Co-Cr-W)
1 (referência)
Revestimento de áreas críticas
Aço CA6NM (13Cr-4Ni)
~3
Padrão de rotores hidráulicos
Duplex UNS S31803
~4
Bombas de processo severo
AISI 316L
~8
Processo químico geral
Bronze naval
~20
Água do mar (com sacrifício)
Aço carbono
~35
Evitar em zona cavitante
Ferro fundido cinzento
~50–80
O pior caso — ver abaixo
O ferro fundido cinzento falha tão rápido por razão microestrutural: as lamelas de grafita têm resistência à tração ~nula e funcionam como rede de pré-trincas distribuída (Kt locais > 5 em bordas agudas) — cada impacto encontra trincas prontas para propagar e conectar. Critério de intervenção: pits rasos e dispersos → acompanhar por boroscopia; pits coalescendo ou borda de ataque comprometida → recuperação por solda com liga resistente (eletrodos base Co ou inox austenítico com alto encruamento) e balanceamento; recorrência em serviço inevitavelmente cavitante → upgrade de material (duplex/CA6NM) depois de esgotar as correções de sistema — material melhor compra vida, não elimina causa.
Severidade, taxa de erosão e o P-F
As correlações empíricas de Gülich (cap. 6) indicam taxa de erosão crescendo com potência alta da velocidade na entrada do impelidor (expoente ≈ 6) e com o comprimento da cavidade de vapor — a severidade escala de forma brutal com rotação e energia de sucção. É por isso que o intervalo P-F varia ordens de grandeza: ~1 semana (ferro fundido, cavitação severa, água quente) a ~6 meses (inox, cavitação moderada, hidrocarboneto leve) nos casos industriais de Bloch & Geitner (cap. 7). Calibre a rota para o pior P-F plausível do seu par material×serviço — e migre para monitoramento contínuo quando P-F/2 ficar menor que o ciclo de rota praticável.
Detecção quantitativa
Vibração: energia de banda larga em 10–25 kHz (sem raia discreta dominante), modulada pela passagem de pás (BPF=npaˊs×N); kurtosis elevada na banda alta distingue a impulsividade da cavitação de outros ruídos de banda larga. A assinatura estocástica separa cavitação de defeitos determinísticos (rolamento, desalinhamento); sub-síncronos 0,3–0,8×RPM apontam recirculação. Baseline primeiro: estabeleça a referência da máquina sã em condição de carga conhecida e alarme por desvio (ex.: 2× o RMS de banda alta do baseline) — o valor absoluto varia máquina a máquina.
Emissão acústica (100 kHz–1 MHz): capta o colapso e a nucleação de microtrincas antes do espectro convencional — o estágio mais precoce do P-F; exige sensor dedicado e disciplina contra ruído industrial.
Pulsação de pressão: transdutores dinâmicos na sucção/descarga; amplitude em BPF e harmônicos cresce com cavitação; componentes de baixa frequência denunciam instabilidade de recirculação (Gülich, cap. 10).
Corrente do motor (via VFD): oscilações de torque pela variação de densidade do fluido bifásico aparecem na assinatura de corrente — detecção sem sensor adicional, útil em frotas distribuídas.
Desempenho: queda de head ≥ 3% define o limiar de teste; em operação, a tendência (PIMS) de head e potência contra a curva de referência denuncia o regime antes disso.
Estado da arte: a revisão de Liu et al. (Processes, 2023) consolida o campo — vibração é o método mais difundido, emissão acústica o mais precoce; classificadores de ML sobre espectros alcançam acurácias altas em bancada (fusão de sinais supera sinal único), com o gargalo prático na escassez de dados rotulados de cavitação real — transfer learning é a fronteira ativa. Digital twins hidráulicos calculam NPSHa em tempo real da instrumentação de processo e alarmam a margem, não o sintoma.
Conexão com confiabilidade — Weibull e o fechamento RCM
Tratando a erosão como desgaste: β ≈ 1,5–3 sobre o tempo em condição cavitante — use a calculadora abaixo para sensibilidade de R(t), MTTF e B10. No Fw A a categoria é Mixed/Complex (Nowlan & Heap: os padrões de gatilho aleatório dominam): não há idade característica de falha enquanto a condição operacional não se instala — TBM é tecnicamente inválida (trocar impelidor "a cada N meses" não remove nem antecipa o gatilho). Com P-F detectável e falha evidente, a decisão é CBM com periodicidade P-F/2 (Moubray, cap. 7 — tarefas preditivas), monitoramento contínuo justificado em ativos críticos ou de P-F curto. A saída definitiva permanece operacional/de projeto: margem de NPSH e posição no BEP são variáveis de engenharia, não de manutenção.
Weibull 2 parâmetros
Leitura Fw A: Desgaste (β>1)
β — parâmetro de forma2.00
R(500h)77.88%
chance de passar de 500 h sem falhar
F(500h)22.12%
fração que já falhou até 500 h
h(500h)0 falhas/h
risco de falhar na próxima hora
MTTF = η·Γ(1+1/β)886.23 h≈ 36.9 dias
vida média até a falha
Vida B10324.59 h≈ 13.5 dias
idade em que 10% da população já falhou
R(t)
h(t)
R(t) = exp(−(t/η)^β) · h(t) = (β/η)·(t/η)^(β−1). Validada contra Smith (2004) e propriedades conhecidas (R(η)=e⁻¹). A categoria editorial da nota prevalece sobre esta leitura didática.
P-F/2 (inspeção mensal típica; contínuo via monitoramento online em ativos críticos)
P-F detectável
Sim
Falha evidente
Sim
P-F típico
~1 semana (ferro fundido, cavitação severa) a ~6 meses (inox, moderada) — Bloch & Geitner; minutos no colapso severo de desempenho
Plano de manutenção
⚠ FOCO NO MODO DE FALHA: Este plano existe para combater especificamente o modo de falha "Cavitação" em "Bomba Centrífuga". Na metodologia RELIABILITAS (Framework A → Framework B), plano de manutenção periódico só é tecnicamente válido para modos de falha com decisão TBM ou CBM. Para falhas aleatórias sem P-F detectável, falhas ocultas ou mortalidade infantil, plano periódico NÃO faz sentido — a resposta correta é outra (RTF + gestão de sobressalentes, proof test, controle de qualidade na montagem). A classificação que fundamenta este plano está na seção 1.
Tarefa
Método
Critério de aceitação
Periodicidade
Analisar vibração em banda de alta frequênciaCondição de contorno: Em operação, carga estável — registrar vazão e ponto de operação da medição
Espectro + envelope; energia banda larga 10–25 kHz modulada por BPF; kurtosis na banda alta
RMS da banda 10–25 kHz ≤ 2× o baseline da máquina sã; sem sub-síncronos 0,3–0,8×RPM→ Confirmar com ultrassom; auditar NPSHa e posição no BEP; corrigir pela camada operacional antes de intervir na bomba
Mensal (P-F/2)
Inspecionar acusticamente a sucção e a volutaCondição de contorno: Em operação, junto à rota de vibração
Ultrassom/estetoscópio; ruído de "cascalho" contínuo; distinguir de entrada de ar (teste de estanqueidade)
Sem ruído de cascalho contínuo; nível ultrassônico estável frente ao baseline→ Ruído presente com NPSHa adequado → investigar recirculação e entrada de ar (tabela de diagnóstico diferencial)
Mensal, junto à rota de vibração
Monitorar margem de NPSH e posição no BEPCondição de contorno: Contínuo, em operação (PIMS)
NPSHa calculado da instrumentação vs NPSHr de curva; vazão vs BEP; tendência de head e potência no PIMS
NPSHa dentro da margem normativa (razão 1,1–2,5 — HI 9.6.1; ≥ NPSHr + 1 m — API 610); vazão no POR (70–120% do BEP)→ Margem violada → restaurar nível/pressão de sucção, reduzir vazão pela descarga ou reduzir rotação (NPSHr ∝ N²)
Contínuo (alarme de desvio)
Inspecionar visualmente o impelidorCondição de contorno: Parada de oportunidade, bomba drenada e bloqueada
Boroscopia; morfologia dos pits (bordas rugosas, metal limpo) e profundidade vs critério de reparo
Pits rasos e dispersos; borda de ataque íntegra; sem trincas coalescendo→ Coalescência ou borda comprometida → recuperar por solda com liga resistente + balancear; recorrência → avaliar upgrade de material